quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Vinho


Vinho
É um "vir" pequenininho

Quando vinho
Embriago-me 

Sóbrio-me 
Quando não vinho

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Avesso

Farta do amor que me prende no laço
E do tempo que jaze no peito
Acabou a canção que dançava meu passo
Promessa que não fiz, não respeito

Atiro-me, então, das desventuras no regaço
E errante me torno, sem amor, sem jeito
Erro em nome da solidão
que me cura do abraço
Desse amor que durou e morreu no leito

Provo do limite do corpo e do gasto
Arredio coração que amou, adormeço
Em meu corpo exausto de indigno cansaço
Já não ama
minh'alma ninada do avesso

Café


Café,
Pra ficar acordado!
Pois mais quente 
é o café
Tão mais gelado 
é o trabalho

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Sobre a Poesia

É boa a noite, a gafieira e a boemia
Mas como a poesia, não tem!
A noite boa se acaba com o dia
A gafieira se acaba
Quando se acaba a boemia
Mas a poesia sobrevive, amigo, além
A poesia é do poeta o castigo
E do tolo a charada que lhe faz refém

É bom o sábado, o sempre e uma companhia
Mas como a poesia, não há quem tem!
Para o sábado há sempre um domingo
E o sempre se acaba no primeiro porém
E quanto a companhia: é bom, eu diria
Mas como a poesia, duvido alguém!
Para o amor que se foi a poesia é jazigo
E é berço morno para aquele que ainda vem

É bom ter sorte, ver televisão, ler jornal também
Mas para a poesia não há contrassenso
Como a poesia, não há outro bem!
Da sorte, desacredita o bom senso
Televisão, dispenso
Sobre o que diz jornal, eu penso
Mas pra o que diz a poesia, amigo, amém!
A poesia é do solitário o "comigo"
E dos conjuntos é um jeito de ser só também






A Morte do Cisne



Aprendi
Antes de agradecer ao público
Nunca recuar palco afora
Mas não me ensinou ficar 
Caso fosse embora
No raio breve de um soutenir 

É que na vida tudo se ajeita
Mas sem tua mão direita 
Já não ando em pacurrí 

Acabou-se a pirueta!
Quando morre a violeta
Silencia o colibri 

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Flores em Seu Lugar

Foi que me deixaste um pouco, senti saudades suas
Foi de tanto que foste embora, eu te esqueci

Foi que tanto chorei sozinha
Hoje, não tão sozinha, sorri
Limpei gavetas, sapatos e lembranças
Sentei, exausta, no chão do meu império
E cantei O Rancho das Flores com Vinícius de Moraes
Bach, como entre anjos
Limpando os estilhaços de vidro dos olhos
Que de dentro de mim doeram de amor

Desde que você se foi eu não olhava o sol
Achava que ele não estaria, por você não estar
Hoje, distraída, olhei o céu
E, no meu descuido, sol havia
E havia música e vida
Estou surpresa com esses pássaros
E esse mundo rodando sem você

Cores preguiçosas que só aparecem no verão
Ainda em plena primavera são meus planos
Planos! Que achei que não faria

Que dia lindo sem você!
Tudo está acontecendo
Tudo o que achei que nunca mais

Estou feliz? Como, se eu não podia?
Quanto tempo perdi? Nesse doce e literário engano?
Que desengano esse sol de setembro carregar minha tristeza
Sua falta, meu tesouro, meu hino
E me deixar
Flores em seu lugar

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Dindi


"Boa noite", que depois da noite
- E essa é longa - 
Já é hora de acordar

E eu acordo para o dia
Quando o que eu mais queria 
ainda dorme:
Ainda dorme sem sonhar

Sinestesia Severina

Apontavam nessa direção: Veredas e Grande Sertão
Aquelas placas na contramão
Matuto, caipira e silvestre, me doeu o currículo
O cotovelo, não
Essas cercas são o limite do estábulo que nascemos
Nós, sertanejos matutos
Das cidades no diminutivo
Cidade risonha
Cidade tão minha

Nascidos paridos numa cela de jumento, nosso irmão
- como o da letra do baião - aguado
Doce dentro de uma chita, falando arrastado
Cantando feito canário afinado
Umas letras choromingadas na noite da lua mais bonita
Da viola mais triste
Dos amigos que partiram com Asa Branca

A poesia severina era tão penada
Que amava - e ama - gente nessa estrada
Enquanto recitava mandacaru e pau de arara

Meus irmãos ainda esquecem "dos plural" dos dias
Como já esquecem nos currais as montarias
Dessa grande fazenda urbana, sertaneja a não sertanear
Na boa vida, na seca e na chuva
Na modernidade que ainda vou me acostumar

A tradição dessa comitiva hoje contradiz na prosa velhos versos
E as placas das veredas, hoje são contramão
É o Brasil entrando no Sertão
O Brasil que traz o mundo, tal d'uma globalização
Que jaz nossa vida de luar no Sertão
Que jaz nossa vida, choro e chão
Que jaz nossa vida, choro e chão 

Da Paixão

Como a bailarina que tira as sapatilhas no camarim 
Depois do espetáculo de casa cheia
Examinando com cuidado os calos
E que apesar de tão jovem já está tão velha

É como decepar a mão do artista
Rasgar os diários 
Perder a memória

A paixão é sepultada no esquecimento
Como o corpo é sepultado na morte

É a ruína de uma torre
É quando o que de mais sólido existe, cai
É quando o cheiro do perfume sai
É quando passa o efeito do vinho

Como uma música se acabando
Vai ficando baixa, sumindo
Dando lugar ao silêncio no quarto, no carro

Como um pássaro que corta o vento
Atravessa a cidade, compositor distraído
E acaba o (en)canto
E pousa
E morre





Todo Dia

Todo dia, dos ventres, o mundo ganha gente
Todo dia, para os túmulos, o mundo perde gente
E eu, nem do ventre
Nem para túmulos
Também ganho gente 
E perco gente

Como água escorre, escorre dia
Como escorre a vida
Ganhando gente 
E perdendo a gente

Nessa roda gigante de um coração
Que falta gente e sobra gente
Que não esquece os passageiros quando chegam
Tampouco quando partem 

É um trem que sofre gente
Se alegra e se enluta gente
Nasce gente
E morre gente
Todo dia


Quando Vão-se os Dedos

Quando os anéis foram embora
Já não me serviam para nada, os dedos
Eu olhava-os
E me lembrava dos anéis que foram embora

Arranquei os dedos para esquecer os anéis
Mas as mãos sem dedos
Lembravam-me dos dedos
Os dedos dos anéis que foram embora

Arranquei as mãos
E olhei o braço
Que sem as mãos me lembravam os dedos
E os dedos, os anéis que foram embora

Arranquei meus olhos
Para que não vissem meu braço

Na escuridão de não ver
eu vejo

Eu vejo o braço
E a mão
E os dedos
E tudo que já foi-se embora


Em que Tropeço perdi meus versos?
Em que topada topei a prosa?

Travessia

Aos poucos sua voz fui esquecendo
E a lembrança, seus trejeitos, na memória foi gemendo
Ainda via em sua boca o seu sorriso
Mas o som já não sorria em meu ouvido
E a saudade que explodiu, ontem, em verso
Hoje reverso de saudade é sentido

Na agonia de quem vai sendo esquecido
Toda história em poema é gemido
E as canções que nos lembravam velhos tempos
No rádio novos tempos são havidos

Já que o passado é quem dita o antigo
E o esquecimento do antigo é incerto
Quão incerto é o futuro
Que esquecemos cantando esses versos

E essa é a última travessia juntos
Passar nessa faixa de pedestres
Das impossibilidades incontestes
Dos destinos solitários dos conjuntos

Como se não houvesse tido em sua vida, na verdade
Na nossa estranheza mais humana de esquecer
Quando finda a travessia, sem saudade
Já não se lembra da lua, o sol do amanhecer

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

O Último Pavilhão

Cantei no tom do cantar do teu pranto,
Quando te vi chorar tua tristeza.
Quando entrei na tua casa,
Reparei na tua bagunça, 
E não orei na tua capela .

Da infância do teu destino,
O pavilhão do teu delito.
Tua casa!
Que é mais tua cina 
Que tua culpa 

Quem te tocaia lembra-se de tua vítima,
Sem reparar o castigo que teu algoz te deu.
Tua grade guarda meu direito,
Em balança alguma existe mais o teu

Tua horta é da cor da esperança,
Mas até tua flor que nasce...
Mesmo ela já te esqueceu




Petit Menina


O mundo dentro do tempo não cabe na palminha da mão,
E o sonho dentro do peito é o futuro na imensidão.
Os passos (que ainda serão) não conseguem ainda seus pezinhos,
Que andando por sobre pontinhas
Profetizam seus caminhos 

E em pouco tempo,
Muito tempo passa!
E esse punhadinho de grandeza,
Esse tantinho só de massa,
É o infinito, na natureza

Na mão tem pouca palma, 
para tanta responsabilidade ter um dia
mas em si traz já toda a alma
da mulher que reformará, com calma
um dia, o mundo, com mestria 

Versos Pares de Saudade


E a vida é simples:
É o que já passou. E o que ainda espero.

O que ainda espero, 
ainda não verso.

Do que passa é o que levo:
Saudades ímpares em versos pares.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Renas'cença

Outra vez, imperioso, te inventou (minha demência)
Amei-te como ao impossível, e te perdi para paciência
Reergui o monumento e te oportunizei a fantasia
Agonizei num lamento a metafórica ironia:
A beleza que escrevi não rimou com inteligência!

No meu amor a persistência de devotar-te a poesia
Não respondeste com mais de sílaba a epopeia da essência
Retrucaste a mim silêncio de dolorida reticência
E a minha casta esperança respondeste a boemia

Outro poema me arrancaste enquanto eu te esquecia:
Que sirva então à poesia, o que não serve à ciência

E sua foto eu embalava fúnebre
E me despedia do seu sorriso célebre
Tomando a coroa, destronava o príncipe
Com meu poeta coração ardendo em febre

Não sabia minh'alma (artista breve)
Que quando coração recria arte póstuma
Quando o presente sofre ao que o passado deve
lembrança em lágrima escapa tórrida
e mesmo o fóssil mais antigo, ao relicário serve

Então olhei outra vez a foto que jurei: não olharia!
E quase acreditei naquele dia
Que não se pode, a arte de amar, se desfazer
E que toda renascença há de ser
Tua beleza oca, fotografia

Então de novo eu te inventei (tão mais perfeito)
E tão mais oco outra vez te ouvi dizer
Não entendendo essa canção que diz meu peito
Que outra vez por todas minha rima é te esquecer